Intervenções médicas no parto: o que é evidência científica e o que pode ser desnecessário?
Ocitocina sintética, analgesia, episiotomia e monitoramento fetal: entenda as principais intervenções obstétricas, quando podem ser necessárias e como a informação ajuda a mulher a participar das decisões sobre seu parto.
Quando falamos sobre parto humanizado, uma dúvida aparece frequentemente: será que toda intervenção médica é ruim?
A resposta é não.
A medicina obstétrica é fundamental para proteger a saúde da mulher e do bebê. Existem situações em que medicamentos, procedimentos e intervenções são necessários e podem salvar vidas.
Mas existe uma diferença importante entre uma intervenção indicada por uma necessidade clínica e uma intervenção realizada simplesmente porque faz parte da rotina de determinada instituição.
É justamente nesse ponto que o conhecimento faz diferença.
Como doula, com formação na área de enfermagem, considero fundamental compreender não apenas a fisiologia do parto, mas também os procedimentos realizados dentro de uma maternidade.
A mulher precisa entender o que está acontecendo com seu corpo, por que determinada conduta está sendo proposta e quais são as alternativas disponíveis.
Neste artigo, vamos conversar sobre algumas das principais intervenções obstétricas, com uma linguagem simples e fundamentação científica.
1. Ocitocina sintética: quando é realmente necessária?
A ocitocina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo, principalmente pelo hipotálamo e liberado pela neuro-hipófise.
Durante o trabalho de parto, ela participa da coordenação das contrações uterinas.
É uma das substâncias fundamentais para o nascimento.
A ocitocina sintética, por sua vez, é um medicamento utilizado na assistência obstétrica. Pode ser administrada por via intravenosa para estimular ou intensificar as contrações uterinas em situações específicas.
Mas existe uma diferença entre a ocitocina produzida pelo próprio organismo e aquela administrada por medicamentos.
A ocitocina natural é liberada pelo corpo de maneira pulsátil, dentro de uma complexa interação hormonal. Já a ocitocina sintética é administrada em doses controladas pela equipe de saúde.
Quando a ocitocina sintética pode ser indicada?
Entre as situações estão:
-
Quando existe atraso ou parada da progressão do trabalho de parto devidamente avaliados.
-
Quando as contrações são insuficientes para promover a evolução do parto.
-
Em determinadas situações clínicas em que é necessário iniciar ou intensificar o trabalho de parto.
-
Para prevenção e tratamento de hemorragia pós-parto, conforme indicação e protocolo.
O medicamento não deve ser utilizado simplesmente porque a mulher está demorando mais do que o esperado para dilatar.
A Organização Mundial da Saúde destaca que a dilatação não acontece necessariamente em uma velocidade uniforme de 1 cm por hora.
Uma evolução mais lenta, isoladamente, não significa que exista um problema.
A OMS também recomenda não utilizar intervenções para acelerar o parto antes de 5 cm de dilatação quando mãe e bebê apresentam condições tranquilizadoras.
Quais cuidados são necessários?
A administração de ocitocina exige acompanhamento da frequência das contrações e avaliação da frequência cardíaca fetal.
Isso porque doses inadequadas ou uma resposta exagerada do útero podem provocar taquissistolia, situação em que ocorrem contrações excessivamente frequentes, reduzindo o intervalo de recuperação entre elas.
Dependendo do caso, isso pode comprometer a oxigenação fetal.
Por isso, a ocitocina não é um medicamento que deve ser utilizado sem indicação, acompanhamento e avaliação individualizada.
O objetivo não é ser contra a ocitocina.
É compreender quando ela realmente oferece benefícios e quando pode representar uma intervenção desnecessária.
2. Analgesia no parto: sentir dor significa que o parto está evoluindo melhor?
Não.
A dor durante o trabalho de parto é uma experiência complexa, influenciada por fatores físicos, emocionais, hormonais e ambientais.
Cada mulher sente e vivencia essa experiência de maneira diferente.
Algumas desejam utilizar métodos naturais de conforto. Outras preferem analgesia farmacológica. Existem mulheres que mudam de opinião durante o trabalho de parto.
Todas essas possibilidades merecem respeito.
O que é analgesia obstétrica?
É a utilização de medicamentos e técnicas anestésicas para reduzir a dor durante o trabalho de parto.
Uma das técnicas mais conhecidas é a analgesia peridural, que permite administrar medicamentos próximos aos nervos responsáveis pela transmissão da sensação dolorosa.
Dependendo da técnica e dos medicamentos utilizados, pode ocorrer redução importante da dor, preservando diferentes graus de sensibilidade e movimentação.
A analgesia pode prejudicar o parto?
Não existe uma resposta única para todas as mulheres.
A analgesia pode proporcionar alívio significativo da dor e melhorar a experiência de nascimento para quem a deseja.
Entretanto, pode apresentar efeitos como:
-
Queda da pressão arterial.
-
Alterações na sensibilidade e na movimentação das pernas.
-
Dificuldade para urinar.
-
Coceira, dependendo dos medicamentos utilizados.
-
Alterações na dinâmica do trabalho de parto, conforme a técnica e o contexto clínico.
A equipe precisa avaliar a mulher, acompanhar os efeitos da técnica e oferecer os cuidados necessários.
O mais importante é compreender que pedir analgesia não significa fracassar no parto.
Uma mulher não precisa provar sua força suportando uma dor que não deseja suportar.
O parto humanizado também pode acontecer com analgesia.
3. Episiotomia: todo parto vaginal precisa de um corte?
Não!
A episiotomia é uma incisão cirúrgica realizada no períneo, região entre a vagina e o ânus, durante o período expulsivo do parto.
Historicamente, foi utilizada de maneira bastante rotineira, sob a justificativa de facilitar a saída do bebê e prevenir lesões perineais.
Entretanto, as evidências científicas modificaram essa compreensão.
Atualmente, a Organização Mundial da Saúde não recomenda a realização rotineira ou liberal de episiotomia em partos vaginais espontâneos.
Isso significa que não existe justificativa para realizar o corte em todas as mulheres como procedimento preventivo.
Quando pode ser necessária?
Em situações específicas, a equipe pode considerar a episiotomia quando existe uma indicação clínica individualizada.
A decisão deve considerar as condições maternas e fetais, o contexto do nascimento e os benefícios e riscos do procedimento.
Quais são os possíveis efeitos da episiotomia?
Como qualquer procedimento cirúrgico, pode provocar:
-
Dor no pós-parto.
-
Necessidade de sutura.
-
Sangramento.
-
Infecção.
-
Desconforto durante a recuperação.
-
Possibilidade de lesões mais profundas.
A prevenção do trauma perineal pode envolver compressas mornas, massagem perineal quando apropriada, posições confortáveis e respeito ao ritmo de nascimento.
O períneo não precisa ser cortado preventivamente para que um bebê nasça.
4. Monitoramento fetal: o que a equipe está observando?
Durante o trabalho de parto, uma das preocupações da equipe é acompanhar o bem-estar do bebê.
Para isso, podem ser utilizados diferentes métodos de avaliação dos batimentos cardíacos fetais.
Um dos equipamentos conhecidos é a cardiotocografia, frequentemente chamada de cardiotoco.
Esse exame permite registrar a frequência cardíaca fetal e a atividade uterina.
Mas é importante entender que o equipamento não fornece sozinho um diagnóstico definitivo.
A equipe precisa interpretar o traçado considerando o contexto clínico, a idade gestacional, a evolução do trabalho de parto e outras informações.
O que significa o monitoramento?
A equipe observa aspectos como:
-
Frequência cardíaca basal do bebê.
-
Variabilidade dos batimentos.
-
Acelerações.
-
Desacelerações.
-
Relação entre as contrações uterinas e os batimentos cardíacos fetais.
Essas informações ajudam a identificar padrões tranquilizadores ou alterações que precisam ser investigadas.
Um traçado alterado não significa automaticamente que será necessária uma cesariana.
É preciso avaliar o conjunto de informações e decidir quais medidas são apropriadas.
O monitoramento pode ser intermitente ou contínuo, conforme as condições clínicas e os protocolos assistenciais.
A mulher tem direito de receber explicações sobre o exame e compreender por que determinada forma de monitoramento está sendo utilizada.
5. A doula precisa entender a rotina hospitalar?
Sim. E esse é um dos grandes diferenciais de uma atuação profissional responsável.
A doula não realiza diagnósticos, não interpreta exames para tomar decisões clínicas e não substitui a equipe médica ou de enfermagem.
Mas precisa compreender os procedimentos e a dinâmica do ambiente hospitalar.
Por exemplo, quando uma mulher recebe uma proposta de administração de ocitocina, a doula pode ajudá-la a organizar suas dúvidas:
-
Por que esse medicamento está sendo proposto?
-
Qual é a indicação neste momento?
-
Quais benefícios são esperados?
-
Quais são os possíveis riscos?
-
Existem outras possibilidades?
-
O que acontece se aguardarmos e reavaliarmos?
Quando a mulher está conectada ao cardiotoco, a doula pode explicar de maneira geral para que serve o equipamento e ajudá-la a conversar com a equipe sobre sua necessidade e sobre as possibilidades de movimentação.
Quando uma analgesia é oferecida, pode acolher a mulher, ajudá-la a compreender as informações recebidas e respeitar sua decisão.
O papel da doula não é questionar automaticamente todas as condutas médicas.
É garantir que a mulher não se sinta sozinha, desinformada ou incapaz de participar das decisões.
6. A presença da doula pode reduzir as chances de cesariana?
Existem evidências científicas importantes sobre os benefícios do apoio contínuo durante o trabalho de parto.
Uma das revisões mais relevantes sobre o assunto foi publicada pela Cochrane em 2017.
A revisão reuniu 26 estudos, envolvendo mais de 15 mil mulheres em diferentes países.
Os pesquisadores observaram que mulheres que receberam apoio contínuo durante o trabalho de parto apresentaram:
-
Menor probabilidade de cesariana.
-
Maior probabilidade de parto vaginal espontâneo.
-
Menor utilização de alguns métodos farmacológicos de alívio da dor.
-
Menor probabilidade de avaliação negativa da experiência do nascimento.
-
Redução média da duração do trabalho de parto.
Um dos resultados mais importantes foi a redução relativa de aproximadamente 25% na ocorrência de cesarianas entre as mulheres que receberam apoio contínuo, em comparação com aquelas que receberam assistência habitual sem esse tipo de apoio.
A revisão também identificou benefícios especialmente relevantes quando o apoio era oferecido por alguém que desempenhava uma função semelhante à de uma doula.
A Organização Mundial da Saúde também recomenda a presença de um acompanhante de escolha durante o trabalho de parto e o nascimento.
Mas isso significa que a doula garante um parto normal?
Não.
A doula não controla o resultado do nascimento.
Não existe garantia de parto vaginal, ausência de intervenções ou ausência de complicações.
O que as evidências mostram é que o apoio contínuo pode melhorar os resultados e a experiência do nascimento, inclusive reduzindo a probabilidade de cesariana.
Isso reforça a importância da presença da doula como parte de uma assistência respeitosa.
7. Conhecimento técnico e acolhimento precisam caminhar juntos.
Existe uma ideia equivocada de que a doula trabalha apenas com aspectos emocionais, espirituais ou holísticos do nascimento.
O acolhimento emocional é muito importante, mas o trabalho da doula vai além disso.
É necessário compreender a fisiologia do parto, reconhecer as diferentes fases do trabalho de parto, conhecer as intervenções obstétricas e entender os limites da própria atuação.
Minha formação na área de enfermagem contribui para que eu tenha um olhar atento à rotina hospitalar e à linguagem utilizada pela equipe assistencial.
Isso não significa substituir o profissional responsável pelo atendimento.
Significa conseguir acompanhar a mulher com informação, responsabilidade e consciência sobre o que está acontecendo ao seu redor.
Uma doula preparada não precisa assustar a gestante com intervenções.
Precisa ajudá-la a compreender que existem possibilidades, que decisões devem ser individualizadas e que ela merece participar de seu próprio atendimento.
8. O parto humanizado não é contra a medicina. É a favor de uma medicina consciente.
Acredito que esse seja um dos pontos mais importantes de toda a discussão.
Não precisamos escolher entre ciência e humanização.
Precisamos de uma assistência obstétrica que una conhecimento científico, segurança, respeito e autonomia.
A ocitocina pode ser necessária.
A analgesia pode ser uma escolha maravilhosa para determinada mulher.
Uma episiotomia pode ter indicação em uma situação específica.
O monitoramento fetal pode identificar alterações importantes.
O problema não é a existência das intervenções.
O problema é quando elas são realizadas sem indicação adequada, sem explicação ou sem considerar a mulher que está vivendo aquele nascimento.
A mulher não é apenas um corpo em trabalho de parto.
Ela é uma pessoa com história, sentimentos, desejos, limites e direitos.
E merece ser tratada dessa maneira.
Doula em São José do Rio Preto: conhecimento, acolhimento e preparação para o nascimento
Sou Luciana Almeida, doula em São José do Rio Preto, e acredito que informação transforma a experiência do nascimento.
Meu trabalho envolve educação perinatal, preparação para o parto, construção do plano de parto e acompanhamento durante o nascimento e pós-parto.
Quero que cada mulher compreenda o funcionamento do próprio corpo, conheça as possibilidades da assistência obstétrica e tenha segurança para participar das decisões sobre seu parto.
Não trabalho com promessas de parto perfeito ou de nascimento sem intervenções.
Trabalho com informação, respeito, presença e acolhimento.
Porque um parto respeitoso não depende de seguir um roteiro perfeito.
Depende de uma mulher que seja ouvida, informada e respeitada em qualquer caminho que seu nascimento precise seguir.
Você merece mais do que chegar à maternidade esperando que tudo dê certo. Você merece chegar preparada para compreender, escolher e participar.
Se você procura uma doula em São José do Rio Preto ou região, entre em contato para conhecer meu acompanhamento e meus programas de educação perinatal.
Luciana Almeida | Doula em São José do Rio Preto
Instagram: @lucianaalmeida.doula
Aplicativo de acompanhamento: @minhadoulaoficial
Educação perinatal | Plano de parto | Acompanhamento de parto | Pós-parto
Conheça o acompanhamento pós-parto
