Gestante em centro obstétrico durante uma cesárea eletiva, acompanhada pela equipe de saúde e pelo acompanhante.
Parto

Guia Completo da Cesárea Eletiva: Benefícios, Riscos e Como Acontece a Cirurgia

A cesárea é uma das cirurgias mais realizadas no mundo e, quando bem indicada, representa um dos maiores avanços da obstetrícia moderna, sendo responsável por salvar a vida de milhares de mulheres e bebês todos os anos.

No entanto, nem toda cesárea acontece pelos mesmos motivos.

Algumas são realizadas devido a uma urgência durante o trabalho de parto, enquanto outras são planejadas antes mesmo do nascimento.

Entender essa diferença é fundamental para que a gestante possa tomar decisões conscientes e participar ativamente do planejamento do seu parto.

O que é uma cesárea?

A cesárea é um procedimento cirúrgico no qual o bebê nasce por meio de incisões realizadas no abdome e no útero da mãe.

Atualmente, é uma cirurgia considerada segura quando realizada por uma equipe capacitada e em ambiente hospitalar adequado.

Assim como qualquer cirurgia, apresenta benefícios, riscos e indicações específicas.

A cesárea é uma cirurgia que salva vidas quando realizada no momento certo e pelas indicações corretas.

O que é uma cesárea eletiva?

A cesárea eletiva é aquela planejada e agendada antes do início do trabalho de parto.

Ela acontece em uma data previamente definida entre a gestante e sua equipe de saúde.

Diferentemente da cesárea de urgência, ela é realizada quando mãe e bebê estão clinicamente estáveis e há tempo para organização e planejamento do nascimento.

Qual a diferença entre cesárea eletiva, cesárea intraparto e cesárea de emergência?

Cesárea eletiva

É realizada antes do início do trabalho de parto.

O procedimento é programado previamente e ocorre em horário agendado.

Pode acontecer por indicação médica ou por decisão da gestante, após aconselhamento adequado.

Cesárea intraparto

Acontece após o início do trabalho de parto.

Geralmente é indicada quando surgem situações que impedem a continuidade segura do parto vaginal.

  • Sofrimento fetal.
  • Parada da evolução do parto.
  • Desproporção cefalopélvica.
  • Descolamento prematuro da placenta.

Cesárea de urgência ou emergência

É realizada quando existe risco imediato para a mãe, para o bebê ou para ambos.

Nessas situações, o nascimento precisa acontecer rapidamente.

Quando a cesárea começou a ser realizada?

Durante muitos séculos, a cesárea era uma cirurgia extremamente arriscada, realizada apenas em situações extremas.

Com os avanços da anestesia, dos antibióticos, das técnicas cirúrgicas e dos bancos de sangue, tornou-se um procedimento muito mais seguro.

Atualmente, ela é considerada uma cirurgia essencial dentro da assistência obstétrica moderna.

Cesárea salva vidas

É importante deixar isso muito claro.

A cesárea não deve ser vista como uma inimiga do parto.

Ela salva vidas.

Quando existe uma indicação clínica bem estabelecida, a cesárea reduz significativamente o risco de complicações graves para a mãe e para o bebê.

O objetivo da assistência obstétrica não é evitar cesáreas a qualquer custo, mas garantir que elas sejam realizadas quando realmente oferecem mais benefícios do que riscos.

Quando a cesárea eletiva pode ser indicada?

Existem diversas situações em que a cesárea programada é considerada a via de parto mais segura para a mãe, para o bebê ou para ambos.

Entre elas estão:

  • Placenta prévia central.
  • Algumas apresentações pélvicas.
  • Determinadas cirurgias uterinas anteriores.
  • Algumas gestações gemelares.
  • Infecção ativa por herpes genital no momento do parto.
  • Algumas condições maternas e fetais específicas.

Cada uma dessas situações deve ser avaliada individualmente pela equipe de saúde, considerando as condições clínicas da gestante e do bebê.

A indicação da cesárea deve sempre ser individualizada e baseada nas melhores evidências científicas disponíveis.

E quando não existe indicação médica?

Algumas mulheres optam pela cesárea mesmo sem uma indicação clínica.

Essa decisão é conhecida como cesárea por solicitação materna.

As principais sociedades científicas reconhecem que a autonomia da mulher deve ser respeitada.

No entanto, recomendam que essa escolha seja feita somente após uma conversa detalhada sobre benefícios, riscos, alternativas e possíveis repercussões para a gestação atual e para futuras gestações.

A decisão deve ser compartilhada entre a gestante e sua equipe de saúde.

A cesárea eletiva deve ser realizada antes de 39 semanas?

Na ausência de indicação médica para antecipação do nascimento, não.

As principais diretrizes internacionais recomendam que a cesárea eletiva seja realizada apenas a partir de 39 semanas completas.

Antes desse período aumenta o risco de dificuldades respiratórias e outras complicações para o recém-nascido.

Quando existe necessidade clínica de antecipar o parto, essa recomendação pode ser modificada em benefício da mãe, do bebê ou de ambos.

Esperar até 39 semanas, quando possível, favorece a adaptação do bebê à vida fora do útero e reduz complicações respiratórias.

Taxas de cesárea

A Organização Mundial da Saúde afirma que não existe uma taxa ideal única de cesarianas para todos os países.

O mais importante é que cada cesárea seja realizada quando existe uma necessidade clínica ou uma decisão informada da mulher após adequado aconselhamento.

O Brasil está entre os países com maiores taxas de cesariana do mundo, especialmente na saúde suplementar, onde a maioria dos nascimentos ocorre por via cirúrgica.

Esse cenário reforça a importância de discutir, durante o pré-natal, as indicações reais da cesárea e do parto vaginal.

Resumo desta parte

  • A cesárea é uma cirurgia que salva vidas quando bem indicada.
  • A cesárea eletiva é planejada antes do início do trabalho de parto.
  • Pode ser indicada por razões médicas ou escolhida pela gestante após aconselhamento adequado.
  • Na ausência de necessidade clínica, recomenda-se realizá-la apenas a partir de 39 semanas.
  • A decisão sobre a via de parto deve ser baseada em evidências científicas, nas condições clínicas e nos valores da mulher.

Referências

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). WHO Recommendations: Intrapartum Care for a Positive Childbirth Experience.
  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Cesarean Delivery on Maternal Request.
  • NICE Guideline NG235 – Intrapartum Care.
  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
  • FIGO – Good Clinical Practice Advice on Cesarean Delivery.

Cesárea por escolha materna: a mulher pode escolher?

Uma das dúvidas mais frequentes durante o pré-natal é:

"Eu posso escolher fazer uma cesárea, mesmo sem indicação médica?"

A resposta é mais complexa do que um simples "sim" ou "não".

Atualmente, as principais sociedades científicas reconhecem que a mulher deve participar ativamente das decisões sobre seu parto.

Isso significa que suas preferências, seus valores, seus medos e suas expectativas devem ser considerados durante o acompanhamento pré-natal.

Ao mesmo tempo, toda escolha deve ser feita de forma consciente, conhecendo tanto os benefícios quanto os possíveis riscos de cada via de parto.

O que é uma cesárea por solicitação materna?

É a cesárea realizada sem uma indicação clínica, por desejo da própria gestante.

Em inglês, esse tipo de procedimento é chamado de Cesarean Delivery on Maternal Request (CDMR).

A decisão deve acontecer após um processo de aconselhamento com a equipe de saúde, no qual a mulher recebe informações claras, imparciais e baseadas em evidências.

A mulher tem direito de escolher?

Sim.

A autonomia é um princípio fundamental da ética em saúde.

Isso significa que toda mulher tem o direito de participar das decisões relacionadas ao seu corpo e ao nascimento do seu filho.

Entretanto, autonomia não significa tomar decisões sem informação.

Para que a escolha seja verdadeiramente livre, é necessário compreender:

  • Os benefícios.
  • Os riscos.
  • As alternativas disponíveis.
  • As possíveis consequências para a gestação atual e para futuras gestações.

Esse processo é chamado de consentimento informado.

Escolher de forma consciente significa receber informações claras, compreender as opções disponíveis e participar ativamente da decisão.

O papel do consentimento informado

Consentimento informado não é apenas assinar um documento.

É uma conversa entre a gestante e a equipe de saúde.

Nessa conversa devem ser discutidos:

  • Os benefícios da cesárea.
  • Os riscos maternos.
  • Os riscos para o bebê.
  • Os benefícios do parto vaginal.
  • As limitações de cada via de parto.
  • As dúvidas e expectativas da mulher.

Somente após esse diálogo é possível tomar uma decisão verdadeiramente consciente.

Por que algumas mulheres preferem a cesárea?

Cada mulher possui sua própria história.

Entre os motivos mais frequentes estão:

  • Medo intenso do parto (tocofobia).
  • Experiências traumáticas anteriores.
  • Receio da dor.
  • Medo de lacerações.
  • Preocupação com a saúde do bebê.
  • Desejo de programar a data do nascimento.
  • Sensação de maior controle sobre o processo.

Nenhum desses sentimentos deve ser minimizado.

O papel da equipe é acolher essas preocupações, esclarecer dúvidas e oferecer apoio para que a decisão seja tomada de forma segura.

O medo da dor deve ser respeitado

O medo da dor é uma das principais razões pelas quais algumas mulheres desejam uma cesárea.

Esse medo é legítimo e merece ser acolhido com respeito.

Ao mesmo tempo, é importante que a gestante saiba que existem diversas estratégias eficazes para o alívio da dor durante o trabalho de parto, incluindo métodos não farmacológicos e analgesia peridural.

Conhecer essas opções permite que a decisão seja baseada em informação, e não apenas no medo.

Informação de qualidade ajuda a transformar o medo em confiança e permite escolhas mais conscientes.

Existe uma via de parto melhor?

Não existe uma resposta única que sirva para todas as mulheres.

O melhor parto é aquele que oferece mais benefícios do que riscos para aquela gestação específica, respeitando as condições clínicas da mãe, do bebê e as preferências da mulher.

A assistência deve ser individualizada e baseada em evidências científicas.

O que dizem as evidências?

As pesquisas mostram que, na ausência de indicação médica, o parto vaginal planejado costuma apresentar menor risco de algumas complicações maternas e neonatais no curto prazo.

Por outro lado, a cesárea pode reduzir o risco de algumas intercorrências específicas, como determinadas lacerações perineais graves.

Nenhuma via de parto é totalmente isenta de riscos.

Por isso, a decisão deve sempre considerar o equilíbrio entre benefícios e possíveis complicações.

A equipe pode recusar uma cesárea?

Essa questão depende da legislação, das normas éticas e da avaliação clínica de cada situação.

De forma geral, o profissional tem o dever de orientar a gestante com base nas melhores evidências científicas e garantir que a decisão seja tomada de forma consciente.

Quando houver objeção por parte do profissional, a gestante deve ser informada de maneira respeitosa e, sempre que possível, encaminhada para outro profissional ou serviço, preservando seu direito à informação e à continuidade do cuidado.

O mais importante é uma decisão compartilhada

A escolha da via de parto não deve ser baseada em medo, pressão familiar, conveniência da equipe ou informações encontradas nas redes sociais.

Ela deve ser construída por meio do diálogo, do respeito e da confiança entre a gestante e sua equipe de saúde.

A mulher merece ser protagonista dessa decisão.

Não existe uma via de parto perfeita para todas as mulheres. Existe a via mais segura e adequada para cada gestação.

Resumo desta parte

  • A cesárea por solicitação materna é realizada sem indicação clínica, por escolha da gestante.
  • A autonomia da mulher deve ser respeitada, mas a decisão precisa ser baseada em consentimento informado.
  • Medos, dúvidas e experiências anteriores devem ser acolhidos durante o pré-natal.
  • Não existe uma via de parto ideal para todas as mulheres.
  • A melhor decisão é aquela tomada de forma consciente, compartilhada e baseada em evidências científicas.

Referências

  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Committee Opinion No. 761 – Cesarean Delivery on Maternal Request.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). WHO Recommendations: Intrapartum Care for a Positive Childbirth Experience.
  • NICE Guideline NG235 – Intrapartum Care.
  • FIGO – Good Clinical Practice Advice on Cesarean Delivery.
  • FEBRASGO – Recomendações sobre via de parto e autonomia da gestante.

Como acontece uma cesárea eletiva?

Para muitas gestantes, um dos maiores medos da cesárea está relacionado ao desconhecido.

Perguntas como "Vou sentir dor?", "Quanto tempo demora a cirurgia?" e "O que acontece com o bebê logo após nascer?" são muito comuns.

Conhecer cada etapa do procedimento ajuda a reduzir a ansiedade e permite que a mulher participe desse momento com mais tranquilidade e segurança.

Embora existam pequenas diferenças entre hospitais, a sequência da cirurgia costuma ser bastante semelhante.

Antes da cirurgia

No dia da cesárea, a gestante é admitida no hospital algumas horas antes do procedimento.

Nesse período, a equipe realiza uma avaliação completa para garantir que tudo esteja preparado para o nascimento.

  • Conferência dos exames.
  • Avaliação clínica.
  • Verificação dos sinais vitais.
  • Confirmação da idade gestacional.
  • Assinatura dos documentos necessários.
  • Conversa com a equipe médica e o anestesiologista.

Também são confirmados o tempo de jejum e esclarecidas todas as dúvidas da gestante.

Esse momento é importante para que a mulher se sinta acolhida, informada e segura antes da cirurgia.

Preparação para a cirurgia

Antes de entrar no centro cirúrgico, alguns procedimentos de rotina costumam ser realizados.

  • Colocação de um acesso venoso no braço.
  • Administração de medicamentos quando indicados.
  • Retirada de acessórios metálicos.
  • Troca para a roupa cirúrgica.

Em alguns hospitais pode ser realizada a retirada dos pelos da região da cirurgia, porém essa prática não é recomendada de rotina e deve ser feita apenas quando houver indicação.

A entrada no centro cirúrgico

Ao entrar na sala cirúrgica, a gestante encontrará uma equipe formada por diferentes profissionais.

  • Obstetra.
  • Médico auxiliar.
  • Anestesiologista.
  • Enfermeiro obstetra.
  • Técnico de enfermagem.
  • Pediatra ou neonatologista.

Após a preparação inicial, inicia-se a anestesia.

A anestesia

Na maioria das cesáreas eletivas é utilizada a anestesia raquidiana (raqui) ou a anestesia peridural. Em alguns casos, pode ser utilizada uma combinação das duas técnicas.

A gestante permanece acordada durante todo o nascimento.

Após a aplicação da anestesia ocorre perda da sensibilidade da cintura para baixo, impedindo que a cirurgia provoque dor.

É comum sentir pressão, movimentação e pequenos puxões durante o nascimento do bebê. Essas sensações são esperadas e não significam que a anestesia não esteja funcionando.

Durante a cesárea a mulher permanece consciente para viver o nascimento do seu bebê, sem sentir dor, apenas sensações de pressão e movimentação.

O acompanhante

Sempre que não houver contraindicação clínica, a presença de um acompanhante é garantida por lei durante a cesárea.

Na maioria dos hospitais, o acompanhante entra na sala cirúrgica após a realização da anestesia e permanece ao lado da gestante durante todo o nascimento.

Sua presença costuma trazer mais segurança, conforto emocional e tranquilidade para esse momento tão importante.

O acompanhante é parte importante da experiência de nascimento e seu apoio pode trazer mais segurança e acolhimento para a mulher.

O início da cirurgia

Após confirmar que a anestesia está fazendo efeito, a equipe realiza a preparação da pele com solução antisséptica, posiciona os campos cirúrgicos estéreis e acomoda a gestante da forma mais segura possível.

Em muitos hospitais existe um campo cirúrgico que impede a visualização da cirurgia.

Algumas maternidades, porém, oferecem a possibilidade de utilizar uma cortina transparente ou abaixá-la no momento do nascimento, desde que haja segurança para a mãe e o bebê.

A incisão

Na maioria das cesáreas atuais, a incisão é realizada horizontalmente, logo acima dos pelos pubianos.

Essa técnica costuma proporcionar melhor resultado estético e menor risco de complicações.

Após abrir cuidadosamente as camadas do abdome e do útero, o obstetra realiza o nascimento do bebê.

O nascimento do bebê

Esse costuma ser o momento mais emocionante da cirurgia.

É comum que a mãe sinta uma sensação de pressão ou de puxão enquanto o bebê está sendo retirado do útero.

Logo após o nascimento, muitos bebês choram espontaneamente, enquanto outros precisam apenas de uma pequena estimulação para iniciar a respiração.

Quando mãe e bebê estão bem, o contato pele a pele pode ser iniciado ainda na sala cirúrgica.

Mesmo em uma cesárea, sempre que possível, o contato pele a pele e o acolhimento ao recém-nascido devem ser estimulados.

Clampeamento do cordão umbilical

Sempre que as condições clínicas permitirem, recomenda-se o clampeamento tardio do cordão umbilical.

Isso significa aguardar pelo menos 30 a 60 segundos antes de interromper a circulação do cordão.

Essa prática favorece a transferência de sangue da placenta para o bebê, aumentando suas reservas de ferro e reduzindo o risco de anemia nos primeiros meses de vida.

A saída da placenta

Após o nascimento do bebê, a placenta é retirada cuidadosamente.

Em seguida, o obstetra verifica se há sangramentos e inicia o fechamento das camadas do útero e da parede abdominal.

Essa etapa costuma durar mais tempo do que o nascimento do bebê.

O fechamento da cirurgia

As camadas do abdome são fechadas cuidadosamente com fios cirúrgicos apropriados.

Dependendo da técnica utilizada, os pontos podem ser internos, absorvíveis ou externos.

Antes do término da cirurgia, toda a equipe confirma que mãe e bebê estão bem.

Quanto tempo demora uma cesárea?

Em média, o nascimento do bebê acontece entre cinco e quinze minutos após o início da cirurgia.

O procedimento completo costuma durar entre quarenta e sessenta minutos, podendo variar conforme cada situação clínica.

O que acontece depois?

Após o término da cirurgia, a mãe é encaminhada para a sala de recuperação anestésica.

Nesse período, a equipe acompanha a pressão arterial, a frequência cardíaca, o sangramento, o retorno dos movimentos das pernas e o controle da dor.

Quando mãe e bebê estão bem, eles permanecem juntos e a amamentação pode ser iniciada ainda na primeira hora de vida.

Conhecer cada etapa da cesárea ajuda a reduzir a ansiedade e permite que a mulher participe do nascimento com mais tranquilidade e confiança.

Quais são os riscos e benefícios da cesárea eletiva para a mãe?

Toda intervenção médica possui benefícios, riscos e limitações.

Com a cesárea não é diferente.

Quando existe uma indicação clínica, seus benefícios superam amplamente os riscos, tornando-a a opção mais segura para a mãe, para o bebê ou para ambos.

Entretanto, quando realizada sem necessidade médica, é importante que a gestante conheça também os possíveis riscos associados ao procedimento.

O objetivo deste capítulo não é gerar medo, mas fornecer informações claras e baseadas em evidências para uma tomada de decisão consciente.

Quais são os benefícios da cesárea?

Em determinadas situações, a cesárea reduz significativamente o risco de complicações graves.

Entre seus principais benefícios estão:

  • Possibilita um nascimento seguro quando o parto vaginal representa maior risco.
  • Reduz a mortalidade materna e neonatal em diversas situações obstétricas.
  • Evita complicações relacionadas a algumas apresentações fetais e alterações placentárias.
  • Permite melhor planejamento quando há necessidade clínica de antecipar o nascimento.

Quando bem indicada, a cesárea salva vidas.

A cesárea não deve ser vista como um fracasso do parto, mas como uma cirurgia que pode ser essencial para proteger a vida da mãe e do bebê.

A cesárea é uma cirurgia de grande porte

Apesar de ser muito frequente, a cesárea continua sendo uma cirurgia abdominal de grande porte.

Isso significa que envolve anestesia, incisões na pele, músculos e útero, perda de sangue e um tempo de recuperação geralmente maior do que o parto vaginal.

Por esse motivo, sua indicação deve sempre considerar a relação entre riscos e benefícios.

1. Maior perda sanguínea

Durante a cesárea ocorre, em média, uma perda de sangue maior do que no parto vaginal.

Na maioria das mulheres isso não provoca problemas importantes.

Entretanto, em alguns casos pode haver necessidade de medicamentos adicionais, reposição de ferro e, mais raramente, transfusão sanguínea.

2. Maior risco de infecção

Como em qualquer cirurgia, existe risco de infecção.

As infecções podem ocorrer na pele, na cicatriz cirúrgica, no útero (endometrite) e, mais raramente, em outros locais.

Para reduzir esse risco, recomenda-se o uso de antibiótico profilático antes da cirurgia.

3. Lesões cirúrgicas

Embora sejam incomuns, podem ocorrer lesões acidentais em estruturas próximas ao útero, como a bexiga, os ureteres, o intestino e vasos sanguíneos.

Essas complicações são raras, principalmente quando a cirurgia é realizada por equipes experientes.

4. Trombose e embolia pulmonar

A gravidez aumenta naturalmente a tendência do organismo de formar coágulos sanguíneos. Após uma cirurgia, como a cesárea, esse risco torna-se ainda maior.

Na maioria das mulheres, nenhuma complicação acontece. Ainda assim, a prevenção é muito importante.

As principais medidas para reduzir esse risco incluem:

  • Levantar-se da cama assim que houver liberação da equipe de saúde.
  • Caminhar precocemente.
  • Utilizar meias de compressão quando indicadas.
  • Receber anticoagulantes quando houver fatores de risco específicos.

A movimentação precoce é uma das medidas mais eficazes para reduzir o risco de trombose após a cesárea.

5. Dor no pós-operatório

É esperado sentir dor nos primeiros dias após a cirurgia.

A intensidade varia entre as mulheres e depende de diversos fatores, como a técnica cirúrgica utilizada, o limiar individual de dor e a recuperação de cada organismo.

Atualmente existem protocolos eficazes para o controle da dor, permitindo que a mãe consiga caminhar, cuidar do bebê e iniciar a amamentação com maior conforto.

É importante comunicar à equipe sempre que a dor estiver intensa, pois ela não precisa ser suportada em silêncio.

6. Recuperação mais lenta

Como toda cirurgia abdominal, a cesárea exige um período maior de recuperação quando comparada ao parto vaginal.

Nos primeiros dias é comum existir dificuldade para:

  • Levantar da cama.
  • Caminhar.
  • Carregar peso.
  • Realizar movimentos bruscos.
  • Subir escadas repetidamente.

Com analgesia adequada, apoio familiar e respeito ao tempo do corpo, a recuperação costuma evoluir de forma satisfatória.

Descansar, aceitar ajuda e respeitar os limites do corpo fazem parte da recuperação e não representam sinal de fraqueza.

7. Complicações em futuras gestações

Esse é um dos aspectos mais importantes quando a cesárea é realizada sem indicação médica.

Cada cesárea aumenta discretamente o risco de algumas complicações em futuras gestações.

Entre elas estão:

  • Placenta prévia.
  • Placenta acreta, quando a placenta se fixa profundamente ao útero.
  • Ruptura uterina em futuras tentativas de parto vaginal.
  • Aderências entre órgãos da pelve.

Esses riscos aumentam progressivamente conforme o número de cesáreas realizadas.

A cesárea aumenta o risco de morte materna?

A mortalidade materna após uma cesárea é baixa, principalmente quando o procedimento é realizado em ambiente adequado e por equipe capacitada.

Entretanto, quando comparada ao parto vaginal planejado em gestantes de baixo risco, a cesárea apresenta um risco discretamente maior de complicações relacionadas ao procedimento cirúrgico.

Esse é um dos motivos pelos quais as sociedades científicas recomendam que a cesárea seja realizada quando seus benefícios superam seus riscos.

Toda mulher terá essas complicações?

Não.

A grande maioria das mulheres se recupera muito bem após uma cesárea.

Os riscos apresentados representam possibilidades identificadas em estudos científicos e não significam que eles acontecerão com todas as mulheres.

O risco individual depende de fatores como idade, doenças pré-existentes, obesidade, número de cesáreas anteriores e características da gestação.

Conhecer os riscos não significa ter medo da cesárea. Significa tomar decisões de forma consciente, informada e baseada em evidências científicas.

Quais são os riscos da cesárea eletiva para o bebê?

Quando existe uma indicação médica, a cesárea pode ser a forma mais segura de nascimento para o bebê.

No entanto, quando realizada sem necessidade clínica, especialmente antes de 39 semanas de gestação, alguns riscos neonatais tornam-se mais frequentes quando comparados ao parto vaginal planejado.

Isso não significa que a cesárea seja prejudicial para todos os bebês.

Na verdade, a grande maioria dos recém-nascidos por cesárea nasce saudável e evolui muito bem.

O objetivo deste capítulo é explicar quais são esses riscos, por que eles acontecem e o que pode ser feito para reduzi-los.

O bebê também se prepara para nascer

Muitas pessoas imaginam que apenas o corpo da mãe se prepara para o parto.

Na realidade, o bebê também passa por importantes adaptações fisiológicas nas horas que antecedem o nascimento.

Durante o trabalho de parto ocorre uma intensa liberação de hormônios, como adrenalina e cortisol, que ajudam o bebê a:

  • Eliminar o líquido presente nos pulmões.
  • Amadurecer a função respiratória.
  • Adaptar o coração à circulação fora do útero.
  • Regular a glicemia.
  • Manter melhor a temperatura corporal.

Na cesárea eletiva realizada antes do início do trabalho de parto, parte desse processo pode não acontecer da mesma forma.

O trabalho de parto não prepara apenas a mãe. Ele também ajuda o bebê na transição para a vida fora do útero.

1. Maior risco de dificuldades respiratórias

Este é o principal risco neonatal associado à cesárea eletiva.

Sem o trabalho de parto, o líquido presente nos pulmões pode demorar mais para ser absorvido.

Como consequência, aumenta a chance de algumas dificuldades respiratórias logo após o nascimento.

Taquipneia Transitória do Recém-Nascido (TTN)

É a complicação respiratória mais frequente.

O bebê apresenta respiração acelerada porque ainda existe excesso de líquido nos pulmões.

Na maioria dos casos, essa condição melhora espontaneamente entre 24 e 72 horas, apenas com observação e suporte adequado.

Síndrome do Desconforto Respiratório (SDR)

Embora seja mais comum em prematuros, essa condição também pode ocorrer em bebês nascidos por cesárea antes de 39 semanas.

Dependendo da gravidade, pode haver necessidade de oxigênio, suporte respiratório ou internação em unidade neonatal.

Hipertensão Pulmonar Persistente

Trata-se de uma complicação rara, porém potencialmente grave.

Seu risco também é discretamente maior quando a cesárea eletiva acontece precocemente, antes do momento recomendado.

Por que esperar até 39 semanas?

Diversos estudos demonstram que o risco de complicações respiratórias diminui significativamente após 39 semanas completas de gestação.

Por esse motivo, na ausência de indicação médica para antecipar o nascimento, as principais diretrizes internacionais recomendam que a cesárea eletiva seja realizada somente a partir desse período.

Esperar até 39 semanas, quando possível, reduz o risco de dificuldades respiratórias e favorece uma adaptação mais tranquila do recém-nascido.

2. Maior necessidade de internação em Unidade Neonatal

Como consequência das dificuldades respiratórias ou da adaptação à vida fora do útero, alguns recém-nascidos podem precisar permanecer em observação na Unidade Neonatal.

É importante destacar que isso não significa, necessariamente, que o bebê esteja gravemente doente.

Muitas dessas internações ocorrem apenas para monitorização e costumam ser de curta duração, até que o bebê complete sua adaptação.

3. Maior risco de hipoglicemia

Logo após o nascimento, o bebê precisa adaptar seu metabolismo para manter níveis adequados de glicose no sangue.

Em alguns casos, especialmente quando a cesárea ocorre antes de 39 semanas ou quando existem fatores associados, como diabetes materno, há um risco discretamente maior de hipoglicemia.

Por esse motivo, alguns recém-nascidos necessitam de monitorização da glicemia nas primeiras horas de vida.

Na maioria das vezes, a amamentação precoce é suficiente para estabilizar os níveis de glicose.

4. Maior risco de icterícia

Alguns estudos sugerem uma discreta maior frequência de icterícia em bebês nascidos por cesárea eletiva.

A icterícia ocorre devido ao aumento da bilirrubina no sangue e provoca a coloração amarelada da pele e dos olhos.

Na maior parte dos casos trata-se de uma condição leve e temporária.

Quando necessário, o tratamento é realizado com fototerapia.

5. Pequeno risco de lesão durante a cirurgia

Durante a abertura do útero existe um pequeno risco de ocorrer um corte superficial na pele do bebê.

Esse evento é incomum e, quando acontece, geralmente resulta em pequenas lesões que cicatrizam completamente, sem deixar sequelas.

6. Alterações na microbiota

No parto vaginal, o bebê entra em contato com bactérias presentes na vagina e no intestino materno, que participam da formação inicial da microbiota.

Na cesárea, essa colonização acontece de forma diferente.

Embora existam diferenças na composição da microbiota entre bebês nascidos por parto vaginal e cesárea, as evidências atuais não permitem afirmar que essas alterações, isoladamente, provoquem doenças futuras.

A amamentação exerce um papel fundamental no desenvolvimento saudável dessa microbiota.

Independentemente da via de parto, o leite materno é um dos principais fatores para o desenvolvimento saudável da microbiota intestinal do bebê.

7. O contato pele a pele continua sendo possível

Muitas pessoas acreditam que o contato pele a pele acontece apenas após o parto vaginal, mas isso não é verdade.

Sempre que mãe e bebê estiverem clinicamente estáveis, o contato pele a pele pode ser iniciado ainda na sala cirúrgica.

Essa prática oferece diversos benefícios:

  • Melhora a adaptação do recém-nascido.
  • Ajuda a manter a temperatura corporal.
  • Favorece a estabilidade da glicemia.
  • Fortalece o vínculo entre mãe e bebê.
  • Aumenta as chances de amamentação na primeira hora de vida.

A maioria dos bebês nasce saudável

Apesar dos riscos descritos, é importante reforçar que a grande maioria dos recém-nascidos por cesárea eletiva apresenta boa adaptação e evolui sem complicações.

Conhecer esses riscos não significa ter medo da cesárea.

Significa compreender por que as sociedades científicas recomendam que ela seja realizada quando há indicação médica ou, na ausência dela, preferencialmente após 39 semanas completas.

Informação baseada em evidências permite escolhas conscientes e tranquiliza as famílias durante o planejamento do nascimento.

Resumo deste capítulo

A cesárea eletiva é uma cirurgia segura quando realizada no momento adequado e por uma equipe capacitada.

Quando existe uma indicação médica, ela representa a forma mais segura de nascimento para a mãe, para o bebê ou para ambos.

Entretanto, quando realizada sem necessidade clínica, é importante conhecer seus possíveis riscos e benefícios para que a decisão seja tomada de forma consciente.

Em relação ao bebê, as evidências científicas mostram que:

  • O principal risco é o aumento das dificuldades respiratórias, especialmente quando a cesárea é realizada antes de 39 semanas.
  • Pode haver maior necessidade de observação em Unidade Neonatal.
  • Existe um discreto aumento no risco de hipoglicemia e icterícia em alguns recém-nascidos.
  • Pequenas lesões cirúrgicas são raras e, quando ocorrem, geralmente evoluem sem sequelas.
  • O contato pele a pele e a amamentação na primeira hora continuam sendo possíveis após a cesárea.
  • A grande maioria dos bebês nasce saudável e apresenta boa adaptação à vida fora do útero.

A melhor via de parto é aquela que oferece mais benefícios do que riscos para aquela gestação, respeitando as evidências científicas, as condições clínicas e a autonomia da mulher.

Mensagem final

Não existe parto perfeito.

Existe o parto possível, seguro, respeitoso e baseado nas necessidades de cada mulher e de cada bebê.

A cesárea não deve ser motivo de culpa, assim como o parto vaginal não deve ser visto como uma obrigação.

O mais importante é que a gestante receba informações confiáveis, participe das decisões e seja acolhida durante todo o processo.

Conhecimento reduz o medo, fortalece a autonomia e permite que cada família viva o nascimento com mais segurança e tranquilidade.

Referências científicas

  • American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). Cesarean Delivery on Maternal Request. Committee Opinion No. 761.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). WHO Recommendations: Intrapartum Care for a Positive Childbirth Experience. 2018.
  • NICE Guideline NG235. Intrapartum Care.
  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO). Protocolos de Assistência ao Parto.
  • FIGO. Good Clinical Practice Advice on Cesarean Delivery.
  • Sandall J, et al. Short-term and long-term effects of caesarean section on the health of women and children. The Lancet. 2018.
  • Cochrane Database of Systematic Reviews. Caesarean section versus vaginal birth for women without medical indication.

Sobre a autora

Luciana Almeida é doula, educadora perinatal e técnica de enfermagem. Seu trabalho é baseado em evidências científicas e no respeito à autonomia da mulher, oferecendo informações claras e acolhimento para que gestantes e famílias possam tomar decisões conscientes durante a gestação, o parto e o pós-parto.

Conheça o acompanhamento pós-parto

Converse com Luciana sobre o acompanhamento

← Voltar para os conteúdos