Fase Ativa do Trabalho de Parto: Entenda o que Acontece com o Corpo e Como o Parto Evolui
Mas existe algo fundamental que toda gestante precisa saber: trabalho de parto não funciona como um relógio. Cada mulher tem seu próprio ritmo, e a evolução não acontece necessariamente de forma linear.
Durante muitos anos, acreditou-se que o colo do útero deveria dilatar aproximadamente 1 centímetro por hora. Atualmente, estudos mais recentes mostram que essa regra rígida não representa adequadamente a realidade da maioria dos trabalhos de parto.
O mais importante não é comparar o trabalho de parto de uma mulher com o de outra, mas avaliar a evolução individual, o bem-estar materno e o bem-estar do bebê.
O que é a fase ativa do trabalho de parto?
O trabalho de parto é dividido em fases. A fase ativa faz parte do primeiro estágio do trabalho de parto e corresponde ao período em que a dilatação cervical passa a evoluir de maneira mais rápida até atingir a dilatação completa.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a fase ativa é caracterizada por:
- Contrações uterinas regulares e dolorosas;
- Apagamento importante do colo do útero;
- Dilatação cervical progressiva;
- Aceleração do processo de dilatação;
- Progressão em direção à dilatação completa.
A OMS considera, de forma geral, o início da fase ativa a partir de aproximadamente 5 centímetros de dilatação.
Já o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) utiliza 6 centímetros de dilatação como referência para o início da fase ativa e recomenda que critérios de parada de progressão não sejam aplicados antes desse ponto.
Essas diferenças entre diretrizes mostram algo muito importante: o trabalho de parto é um processo biológico complexo e não deve ser reduzido apenas a um número isolado de centímetros.
Então, afinal: a fase ativa começa com 5 ou 6 centímetros?
Essa é uma dúvida muito comum e a resposta depende da diretriz utilizada.
A OMS define a fase ativa, de forma geral, a partir de 5 centímetros de dilatação. O ACOG, uma das principais instituições de obstetrícia dos Estados Unidos, recomenda considerar 6 centímetros como o início da fase ativa para decisões relacionadas à progressão e à parada do trabalho de parto.
Isso não significa que nada esteja acontecendo antes de 5 ou 6 centímetros. Antes desse período, o corpo pode estar realizando um trabalho extremamente importante: o colo pode estar amadurecendo, amolecendo, apagando e iniciando sua dilatação.
Portanto, uma mulher pode estar tendo contrações intensas e ainda não estar na fase ativa segundo determinada classificação clínica.
Dor intensa não é sinônimo de fase ativa. Da mesma forma, uma dilatação menor não significa que o trabalho de parto não seja real ou que o corpo não esteja trabalhando.
O que acontece no corpo durante a fase ativa?
Durante a fase ativa, o útero trabalha de maneira coordenada para promover mudanças no colo uterino e ajudar o bebê a descer progressivamente pela pelve.
As contrações não servem apenas para causar dor. Elas têm uma função fisiológica.
Durante cada contração:
- O músculo uterino se contrai;
- A pressão dentro do útero aumenta;
- O colo do útero continua seu processo de apagamento e dilatação;
- O bebê recebe pressão progressiva em direção à pelve;
- Após a contração, ocorre um período de relaxamento antes da próxima.
Esse intervalo entre as contrações é extremamente importante. É nele que a mulher pode descansar, recuperar energia, respirar e se reorganizar para a próxima onda.
Entre uma contração e outra, o corpo não está parado: ele está se preparando para continuar o processo.
Como costumam ser as contrações na fase ativa?
As contrações tendem a se tornar mais regulares, mais intensas e mais próximas umas das outras. Porém, não existe um único padrão que seja obrigatório para todas as mulheres.
Algumas mulheres percebem claramente a progressão. Outras podem ter contrações muito intensas desde o início. Algumas apresentam intervalos relativamente previsíveis; outras podem ter pequenas variações.
Por isso, avaliar apenas o relógio não é suficiente.
Além da frequência das contrações, a equipe pode avaliar:
- A evolução da dilatação cervical;
- O apagamento do colo do útero;
- A descida do bebê;
- A posição fetal;
- O padrão das contrações;
- O bem-estar do bebê;
- O estado clínico da mãe;
- O contexto geral do trabalho de parto.
A fase ativa dói mais?
Para muitas mulheres, sim. À medida que o trabalho de parto avança, as contrações podem ser percebidas como mais intensas.
Entretanto, a experiência da dor é individual. Ela pode ser influenciada por diversos fatores, incluindo:
- Ambiente;
- Medo e ansiedade;
- Privacidade;
- Sensação de segurança;
- Fadiga;
- Posição corporal;
- Experiências anteriores;
- Presença de apoio contínuo;
- Forma como cada pessoa percebe e processa a dor.
Por isso, reduzir o parto à ideia de que a mulher simplesmente precisa “aguentar a dor” não é uma abordagem adequada.
A mulher precisa de suporte, informação e acesso às opções disponíveis para o alívio da dor, sempre respeitando suas condições clínicas e suas escolhas.
O papel dos hormônios durante a fase ativa
O trabalho de parto é profundamente influenciado por hormônios.
Ocitocina
A ocitocina participa da coordenação das contrações uterinas. Seu funcionamento é favorecido por um ambiente em que a mulher se sinta segura e protegida.
Endorfinas
As endorfinas são substâncias produzidas pelo próprio organismo e podem ajudar a mulher a lidar com a intensidade do trabalho de parto.
Adrenalina e hormônios relacionados ao estresse
Medo intenso, sensação de ameaça e falta de segurança podem interferir na experiência da mulher durante o trabalho de parto.
Isso não significa que qualquer situação de estresse “pare” automaticamente o parto. O trabalho de parto é muito mais complexo do que isso. Porém, oferecer privacidade, comunicação respeitosa e sensação de segurança pode contribuir para uma experiência mais positiva.
Por que o ambiente importa tanto?
A mulher em trabalho de parto não precisa apenas de avaliação clínica. Ela também precisa de cuidado emocional e respeito.
Um ambiente adequado pode incluir:
- Privacidade;
- Comunicação clara;
- Explicação antes dos procedimentos;
- Presença de uma pessoa de apoio;
- Liberdade de movimento quando clinicamente possível;
- Possibilidade de escolher posições confortáveis;
- Respeito às preferências da mulher;
- Acesso a métodos de alívio da dor;
- Tomada de decisão compartilhada.
Um parto baseado em evidências não significa abandonar a tecnologia. Significa utilizar intervenções quando elas são necessárias e evitar intervenções rotineiras sem indicação.
Posições e movimento durante a fase ativa
Quando não existe contraindicação clínica, a liberdade de movimento pode ser importante durante o trabalho de parto.
A mulher pode encontrar mais conforto em diferentes posições ao longo do processo.
Algumas possibilidades incluem:
- Caminhar;
- Ficar em pé;
- Sentar em uma bola de parto;
- Fazer movimentos circulares com o quadril;
- Utilizar posições apoiadas;
- Ficar de cócoras com apoio;
- Ficar de quatro apoios;
- Alternar posições conforme o conforto.
Não existe uma posição perfeita para todas as mulheres.
O corpo pode sinalizar a necessidade de mudar de posição. Algumas mulheres sentem vontade de caminhar; outras preferem se apoiar; outras precisam descansar.
A posição pode mudar ao longo de todo o trabalho de parto.
O bebê também está participando ativamente do trabalho de parto
O parto não é apenas o colo do útero dilatando.
Enquanto a dilatação acontece, o bebê também realiza movimentos e adaptações importantes para atravessar a pelve.
Dependendo da posição do bebê, ele precisa realizar movimentos de adaptação conhecidos como movimentos cardinais do parto.
Por isso, dois trabalhos de parto com a mesma dilatação podem evoluir de maneiras diferentes.
A evolução depende de diversos fatores, incluindo:
- Contrações uterinas;
- Características do colo do útero;
- Posição do bebê;
- Apresentação fetal;
- Adaptação do bebê à pelve;
- Características anatômicas individuais;
- Histórico obstétrico;
- Condições maternas e fetais.
Quanto tempo dura a fase ativa?
Essa é uma das perguntas mais frequentes, mas não existe uma resposta única.
A duração varia entre mulheres e também pode variar entre diferentes partos da mesma mulher.
Segundo recomendações da OMS, a duração da fase ativa pode variar amplamente e, em geral, pode durar até aproximadamente 12 horas em um primeiro parto e até aproximadamente 10 horas em partos subsequentes.
Esses números não devem ser utilizados como um cronômetro automático.
Demorar mais do que outra mulher não significa automaticamente que existe um problema.
A avaliação precisa considerar a evolução real do trabalho de parto e as condições da mãe e do bebê.
O mito do “1 centímetro por hora”
Durante décadas, o trabalho de parto foi avaliado com base em curvas que sugeriam uma progressão relativamente previsível da dilatação.
Uma das ideias mais conhecidas era a de que a mulher deveria dilatar aproximadamente 1 centímetro por hora.
Estudos mais recentes demonstraram que a progressão normal pode ser mais lenta e muito mais variável do que se acreditava anteriormente.
Por isso, as diretrizes atuais passaram a recomendar maior cautela antes de diagnosticar um trabalho de parto como “parado”.
Uma mulher não precisa obrigatoriamente dilatar 1 centímetro por hora para estar tendo uma evolução fisiológica.
O que é uma progressão lenta?
Progressão lenta significa que o trabalho de parto está avançando mais lentamente do que o esperado em determinado contexto.
Mas uma progressão lenta não deve ser confundida automaticamente com parada do trabalho de parto.
Antes de concluir que existe uma dificuldade, é necessário avaliar diversos fatores.
A equipe pode considerar:
- Há mudança na dilatação ao longo do tempo?
- Como estão as contrações?
- Como está o bebê?
- Como está a mãe?
- As membranas estão íntegras ou rotas?
- Existe alguma condição clínica que exija intervenção?
- Qual é a posição do bebê?
- Existe exaustão materna?
Quando é considerada uma parada da fase ativa?
Esse diagnóstico não deve ser feito precocemente.
Segundo recomendações do ACOG, a parada da fase ativa pode ser considerada quando a mulher já está com pelo menos 6 centímetros de dilatação, as membranas estão rotas e não ocorre progressão da dilatação mesmo após um período adequado de avaliação das contrações.
A diretriz considera, de forma geral:
- Ausência de progressão após aproximadamente 4 horas de atividade uterina considerada adequada;
- Ou ausência de progressão após aproximadamente 6 horas de atividade uterina inadequada, mesmo com tentativa de correção com ocitocina, quando indicada.
Importante: esses critérios são utilizados pela equipe de saúde dentro de uma avaliação clínica completa. Eles não devem ser usados isoladamente por gestantes ou acompanhantes para decidir se “o parto está parado”.
Se o trabalho de parto estiver mais lento, a primeira resposta precisa ser uma intervenção?
Não necessariamente.
A conduta depende da causa, da fase do trabalho de parto e das condições da mãe e do bebê.
Antes de uma intervenção, pode ser necessário compreender o que está acontecendo.
Algumas medidas podem incluir, dependendo do contexto:
- Mudança de posição;
- Movimentação;
- Descanso;
- Hidratação conforme orientação;
- Esvaziamento da bexiga;
- Reavaliação da posição fetal;
- Reavaliação das contrações;
- Monitoramento materno e fetal;
- Discussão sobre métodos de analgesia;
- Intervenções obstétricas quando existe indicação clínica.
Cada situação deve ser individualizada.
O rompimento da bolsa significa que a fase ativa começou?
Não.
A bolsa pode romper antes do início do trabalho de parto, durante a fase inicial, durante a fase ativa ou, em alguns casos, apenas próximo ao nascimento.
Portanto:
Bolsa rompida não significa automaticamente que o bebê vai nascer imediatamente.
Após a ruptura das membranas, a conduta dependerá do momento gestacional, da presença ou ausência de trabalho de parto, das características do líquido e da avaliação clínica da mãe e do bebê.
É possível estar na fase ativa e ainda conseguir conversar?
Sim.
Não existe uma regra que determine que uma mulher precisa estar completamente incapaz de falar para estar em trabalho de parto ativo.
Algumas mulheres permanecem comunicativas durante grande parte do processo. Outras entram em um estado de maior concentração e preferem ficar em silêncio.
As duas experiências podem ser normais.
O comportamento da mulher não deve ser utilizado isoladamente para determinar em qual fase do trabalho de parto ela está.
Como a mulher pode lidar com as contrações durante a fase ativa?
O objetivo não precisa ser “eliminar completamente a sensação”, mas ajudar a mulher a encontrar estratégias que proporcionem conforto e segurança.
Alguns métodos não farmacológicos podem incluir:
- Respiração consciente;
- Movimento;
- Banho morno;
- Compressas;
- Massagem;
- Pressão na região lombar;
- Bola de parto;
- Mudança de posição;
- Ambiente com menos estímulos;
- Música, quando desejada;
- Presença de uma pessoa de apoio;
- Técnicas de relaxamento.
Além disso, existem métodos farmacológicos de alívio da dor, incluindo opções de analgesia que devem ser discutidas individualmente com a equipe responsável pelo parto.
O papel do acompanhante durante a fase ativa
Um acompanhante bem orientado pode ser extremamente importante.
O acompanhante não precisa “fazer o parto”. Seu papel pode ser oferecer presença, segurança e suporte.
Ele pode ajudar:
- Oferecendo água quando permitido;
- Ajudando a mulher a mudar de posição;
- Realizando massagens;
- Oferecendo apoio físico;
- Diminuindo estímulos desnecessários;
- Lembrando estratégias previamente combinadas;
- Ajudando na comunicação com a equipe;
- Respeitando os momentos em que a mulher deseja silêncio.
Às vezes, o melhor apoio é simplesmente permanecer presente.
O papel da doula durante a fase ativa
A doula oferece suporte físico e emocional contínuo, além de contribuir com informação e estratégias de conforto.
Ela não substitui a equipe médica, a enfermagem obstétrica ou outros profissionais responsáveis pela assistência clínica.
Durante a fase ativa, a doula pode auxiliar com:
- Medidas de conforto;
- Massagens;
- Sugestões de posições;
- Movimentos para favorecer o conforto;
- Técnicas de respiração;
- Apoio emocional;
- Informações sobre o processo;
- Orientação ao acompanhante;
- Criação de um ambiente mais acolhedor.
A doula não decide pelo casal e não substitui a equipe de saúde. Seu papel é oferecer suporte para que a mulher se sinta mais segura, informada e acompanhada.
O que a gestante precisa saber antes de entrar na fase ativa?
Conhecer o processo pode ajudar a reduzir a sensação de surpresa.
É importante saber que:
- O trabalho de parto não segue um cronômetro rígido;
- Nem toda contração significa que o parto está iminente;
- A intensidade da dor não determina sozinha a dilatação;
- Nem toda evolução lenta significa que existe um problema;
- O bebê também precisa realizar movimentos e adaptações;
- O ambiente e o suporte fazem diferença na experiência;
- Existem métodos farmacológicos e não farmacológicos para alívio da dor;
- Intervenções devem ter indicação e ser explicadas à mulher;
- A tomada de decisão deve considerar mãe, bebê e contexto clínico.
Perguntas importantes para fazer à equipe
Estar informada não significa precisar tomar decisões sozinha. Significa poder participar das decisões sobre seu próprio cuidado.
Você pode perguntar:
- O que está acontecendo neste momento?
- Como está meu bebê?
- Existe uma preocupação imediata?
- Por que esta intervenção está sendo sugerida?
- Quais são os benefícios?
- Quais são os riscos?
- Existe alternativa?
- Podemos aguardar e reavaliar, se mãe e bebê estiverem bem?
- O que pode acontecer se não fizermos nada neste momento?
Essas perguntas podem ajudar na construção de uma decisão compartilhada e baseada em informação.
Quando procurar avaliação?
A orientação sobre quando procurar a maternidade pode variar de acordo com a gestação, o histórico obstétrico e as recomendações da equipe que acompanha a gravidez.
Procure orientação profissional especialmente diante de situações como:
- Suspeita de início do trabalho de parto;
- Ruptura da bolsa;
- Sangramento vaginal;
- Diminuição percebida dos movimentos do bebê;
- Dor intensa contínua ou diferente do padrão das contrações;
- Mal-estar importante;
- Febre;
- Qualquer situação que cause preocupação.
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas durante a gestação ou o trabalho de parto, procure sua equipe de saúde ou serviço de urgência.
O mais importante sobre a fase ativa
A fase ativa do trabalho de parto não deve ser vista como uma corrida contra o relógio.
É um processo fisiológico complexo que envolve contrações, mudanças no colo do útero, movimentos do bebê, hormônios, emoções e adaptação constante.
O cuidado baseado em evidências reconhece que cada trabalho de parto possui um ritmo próprio.
A pergunta não deve ser apenas “quantos centímetros ela dilatou?”.
Também precisamos perguntar:
Como mãe e bebê estão?
Existe progressão?
Há alguma indicação clínica para intervir?
A mulher está sendo ouvida, informada e respeitada?
Resumo: o que é a fase ativa do trabalho de parto?
A fase ativa é o período do primeiro estágio do trabalho de parto em que a dilatação cervical passa a apresentar uma progressão mais acelerada até a dilatação completa.
- A OMS utiliza aproximadamente 5 cm como referência para o início da fase ativa;
- O ACOG utiliza 6 cm como referência para o início da fase ativa em critérios de manejo;
- As contrações tendem a ser mais regulares e intensas;
- O colo do útero continua apagando e dilatando;
- O bebê continua descendo e realizando movimentos de adaptação;
- A evolução não precisa seguir a regra de 1 cm por hora;
- Progressão lenta não significa automaticamente parada do trabalho de parto;
- As decisões devem considerar mãe, bebê e contexto clínico;
- Suporte contínuo, comunicação e respeito são partes fundamentais de uma assistência de qualidade.
Referências científicas e diretrizes
- World Health Organization (WHO). WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience.
- World Health Organization (WHO). WHO Labour Care Guide.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG). First and Second Stage Labor Management.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Intrapartum care for healthy women and babies.
- Estudos contemporâneos sobre curvas de progressão do trabalho de parto e individualização da assistência obstétrica.
Conheça o acompanhamento pós-parto
